Sandra Palma, 12 de junho de 2022, Araçariguama

Minha morada

Há meses não sento num dos meus banquinhos prediletos e este fica no deck ao lado da cozinha. Uma área quadrada, pequena se quiser medir para registrar, mas enorme se quiser sentir o que sinto quando sento aqui. Sinto que as plantas me acolhem como um abraço apertado neste canto da casa.

À esquerda, meu querido pé de café (não, não é arábica) já tem dois metros de altura e preciso colocar uma escadinha para colher as cerejas. E agora é época. Ano retrasado colhi seis litros de grãos bem vermelhinhos, deixei secar, limpei um por um com uma faquinha (não tenho espaço para uma máquina beneficiadora), deixei os grãos limpos secarem mais um pouco e guardei numa linda lata como o bem mais precioso do mundo. De vez em quando dou uma olhada para ver se não tem caruncho. Não quero dividir com eles meu tesouro, já basta os jacus que hora ou outra estão por aqui. Quando estou precisando de dengo me dou de presente uma xícara do “meu café”, não sem antes perfumar todo o chalé com o aroma dos grãos torrados e passar pelo moedor elétrico. A cafeteira é italiana. Que delícia! Mas este ano a safra será menor.

Ao lado dele há uma pitangueira esguia que deve estar com mais de seis metros de altura em busca do sol. Os espertos saguis usufruem de seus saborosos frutos em maior quantidade que eu. Salvo alguns. Os três pés de eucaliptos estão fortes, altos, também esguios.

Talvez tenham uns 40 metros e são meus protetores. Uma tríade. Já causaram reações adversas aos meus vizinhos que, por temor a queda, um dia talvez, registraram uma queixa para que eu os podasse. Reclamação negada com laudo técnico de um engenheiro florestal e equipamento alemão de alta precisão a um custo alto também. Não meço esforços para salvar uma árvore. Ele entende de saúde de árvores mais do que meus vizinhos temerosos e garantiu que estão saudáveis por dentro e por fora.

Para cair , só mesmo com um vendaval único na história de Araçariguama, mas aí não sobrariam chalés de madeira em pé para contar a história.

À direita plantei lima da pérsia e limão siciliano, ambos muda de enxerto e logo deram frutos. Alguns anos mais, outros nem tanto. Acho que a safra é assim mesmo, imprevisível, gera fruto quando quer. As caipirinhas ficam mais saborosas com a lima recém colhida e faço licor com os sicilianos de aroma inconfundível – um limoncello de cair o queixo e pedir bis. Não gosto de apanhá-los, prefiro recolher do chão quando o pé os derruba naturalmente. Acho que a planta-mãe é mais sábia do que eu. Ao lado, num vaso, plantei kinkan. Já deu bastante nos anos anteriores e fiz compota dos deuses, mas este ano resolveu ficar mirradinha e perdeu as folhas. Fruto não deu. Decidi fazer uma poda radical (podar é algo ainda difícil pra mim, requer coragem) e ela agradeceu. Funcionou! Está cheia de folhas novas e verdinhas, num jovem verde claro. Ano que vem tem compota de laranjinha kinkan com cachaça, imagine só.

Ainda nesse pequeno deck tenho uma mini horta acomodada numa caixa feita com capricho e com sobras de madeira da construção da casa. Foi feita sob medida, é bem pequena, não caberia maior. A colheita é alternada e suficiente para o deleite de uma pessoa pouco gulosa: espinafre crocante, folhas de couve fresquinhas, berinjela (tem uma linda no pé e logo será recheada e irá ao forno), tomatinhos fáceis de cultivar, é só soltar as sementinhas ali e deixar o resto com a mãe natureza. Tenho concorrentes para dividir o consumo da pequena safra – lagartas, gafanhotos, lesmas… mas não me importo. Me fazem companhia. Os quatis, na sua rota diária, também transitam pelo espaço, mas por sorte ou paladar dos bichinhos, não se interessam por nada disso, só pelo mamão formosa que nunca consigo vê-los amadurecer. Os famintos os comem verde mesmo!

Nos vasos menores e espalhados pelo chão encontram-se alguns temperos. Dizem que devemos comer todos os dias alguma coisa colhida na hora, então os temperos me ajudam a manter essa prática. O visual colorido vem das flores que nascem espontaneamente aqui e acolá, algumas eu planto e outras nascem por conta própria. Oito anos morando aqui já aprendi que as daqui se dão melhor aqui do que as de lá. As de lá não se adaptam bem aqui. O rododendro do Nepal morreu… acho que precisa de mais altitude e mais frio, muito mais de ambos, isso sim! Então não tenho rododendro aqui. Só fotos dele lá.

Hoje aceitei o convite das minhas plantas companheiras. Estamos conversando há horas enquanto os jacus se acomodam nos altíssimos galhos dos eucaliptos para pernoitar, as maritacas fazem sua algazarra rotineira voando de uma copa à outra, a família de saguis pula ligeira de volta à sua morada e eu busco papel e caneta para escrever esta crônica.

Aqui é minha morada!

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